Discurso de Dídimo em agradecimento ao Título de Cidadão Honorário de BH/MG

CIDADÃO HONORÁRIO DE BELO HORIZONTE
Escrito por Dídimo Paiva
Sócrates dizia não ser um cidadão da Grécia, mas um cidadão do mundo.
Hoje, graças à iniciativa do vereador Adriano Ventura (PT-MG) e apoio unânime dos demais vereadores, sou cidadão honorário de Belo Horizonte.
Que honra maior eu poderia desejar?
Uma cidade é como um mundo à parte, para fazer do homem, sua família e amigos seguros e felizes.
As cidades antigas não eram felizes, porque os patrícios, como os ricos e poderosos de hoje, fechavam e fecham as portas das cidades para impedir a entrada dos plebeus.
A Casa Grande e os Sobrados que marcaram o Brasil colonial citados por Gilberto Freyre era a sociedade degradada dos conquistadores. Minha casa, minha casinha, como ele destacava, ainda é um sonho para mais de 100 milhões de brasileiros. Foi na minha terra natal, Jacuí (MG), que aprendi a ler e gostar dos livros. No final dos anos 30 eu era “redator” preferido dos antigos fazendeiros para redigir suas cartas a familiares distantes.
Em que Brasil vivemos hoje? É um país de poucos patrícios, ricos e donos do mercado, que tudo podem e tudo fazem, e milhões de plebeus à mercê dos novos coronéis.  Belo Horizonte não fugiu à regra. Sonhada para ter 200 mil habitantes no ano 2000, hoje registra quase 3 milhões de habitantes. E, sejamos honestos, é um ambiente que repele os pobres. Sejam brancos, pretos, velhos, baixos, gordos e feios, eles formam uma grande massa de milhões de desempregados e miseráveis nas grandes cidades.
Cidadão de Belo Horizonte sou, com muita honra, pois aqui realizei o meu sonho de ser jornalista. E, em 8 de maio de 1964, tive a honra de redigir o primeiro manifesto contra o Terror Cultural dos golpistas de 1964, quando foram aprisionados jornalistas e intelectuais. Vi crescer a imprensa de papel do século 20 e o nascimento da Internet.
O mundo evoluiu, a ciência e o mercado hoje ditam as regras da globalização. Foi-se o tempo (1828) que Lord Macaulay criou a expressão O Quarto Poder, propugnando a união dos cidadãos com a imprensa para protegê-los dos abusos dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Hoje a mídia está em poder dos governos e megaespeculadores do complexo industrial-militar denunciado pelo ex-presidente general Eisenhower quando entregou o poder ao presidente John F. Kennedy (1961). Kennedy recebeu das mãos de seu antecessor um envelope com o plano da Invasão da Baia dos Porcos para derrubar Fidel Castro.
O que fez Kennedy? Convocou reunião urgente com os donos dos jornais e pediu que nenhum deles publicasse qualquer informação sobre a manobra contra Fidel. Todos os jornais e outros veículos da mídia silenciaram. Consumado o fracasso da Baia dos Porcos, Kennedy voltou a reunir-se com os donos dos jornais e disse: “Se vocês tivessem cumprido sua obrigação de publicar qualquer notícia relevante e grave, teriam evitado o grande fracasso dos EUA e a vergonha que mancha a nossa história”.
Chegamos ao Ano Mil chegarás, superamos o Ano Dois Mil não chegarás, estamos em pleno 3° milênio sob o domínio da ciência. Mas cada vez mais a ciência sem consciência é a ruína dos pobres. Atualmente vivemos a lenta agonia do jornal de papel. A máquina de imprimir de Gutemberg acelerou rápidamente o desenvolvimento. Mas, para que mentir? Liberdade de imprensa não há, nunca houve. A peça basilar dos jornais para expressar a liberdade de expressão do pensamento e liberdade de imprensa está resumida na Ata de Chapultepec, proclamada pela Conferência Mundial promovida em 1994 pela Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), entidade representativa dos donos e associados dos 20 mil jornais e demais veículos da mídia. Em seu preâmbulo, a Ata de Chapultepec diz: “Sabemos que a existência da liberdade de imprensa não garante automaticamente a prática
irrestrita da liberdade de expressão”.

Todos os jornalistas, homens públicos e partidários, governantes e congressistas, mestres e alunos das universidades públicas e privadas (5 milhões de jovens brasileiros), magistrados dos tribunais superiores, estaduais, juízes e membros do Ministério Público devem ler os Dez Princípios Fundamentais da Ata de Chapultepec. E cada um verá que o cidadão nunca teve direito de se informar ou se defender dos abusos criminosos dos governos, do Congresso Nacional e dos veículos que estão a serviço do poder”. (A liberdade de imprensa e as leis – Coleção Chapultepec. Edição: Colonial Press Internacional, In. 3690 NW 50th Street, Miami. Flórida, (EUA), 33142/2000).
Não, não sou num descrente. Mas, força é reconhecer, grande parcela dos políticos desonram a nação brasileira. Lembro que, em 1662, d. Manuel Mascarenhas, rígido em sua fé e político austero, pronunciou uma frase que é atual neste 2009: “Morreram os costumes, o direito, a honra, a piedade, a fé e aquilo que nunca volta quando se perde: o pudor”.
Como homem de fé, lembro o Livro de São Mateus, quando fala dos três Reis Magos, que abandonaram suas terras, sob o brilho de uma estrela no Céu, e chegaram a Belém em busca do Filho de Deus. Na estalagem, encantados e esperançosos, ofertaram suas dádivas ao Deus Menino.
Como sou da terra de Honório Hermeto Carneiro Leão (Marquês do Paraná), Jacuí da perdida infância, acredito numa reconciliação entre o povo e os eleitos. Pode demorar esse reencontro. Meu tempo está chegando. Estou lá no fim do dia, junto da ponta da noite. E espero o raiar da
madrugada para que o Brasil não se afogue em trevas.
Por fim, quero agradecer, mais uma vez, o nobre gesto do jovem vereador Adriano Ventura e demais vereadores que me concederam a honra de ser cidadão honorário da nossa capital.
Muito obrigado.
Belo Horizonte, 3 de setembro de 2009.
Link original: clique aqui.
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~ por elisamancio em 06/09/2009.

Uma resposta to “Discurso de Dídimo em agradecimento ao Título de Cidadão Honorário de BH/MG”

  1. Didimo Paiva,
    Os belorizontinos ficaram muito mais importantes por ganharem um conterrâneo do seu calibre. É muita honra para quem é de Belo Horizonte.
    Não sou natural desta terra para compartilhar com eles desta grande honra, mas como moradora eu fico feliz pela merecida homenagem.
    Gosto muito desta cidade e sempre digo que ela tem o aconchego e a simplicidade de uma provincia e ao mesmo tempo a elegância, o charme de uma metrópole. A gente fala de beleza e louva a natureza, só de pronunciar o seu nome: BELO HORIZONTE.
    Portanto, eu fico muito feliz pelo filho ilustre que esta cidade ganhou. E digo de coração: PARABÉNS, BELO HORIZONTE!

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